A maior cena pós-créditos do MCU vira ponte entre Thunderbolts* e o próximo choque dos Vingadores
Kevin Feige não costuma falar por falar. Ao comentar a cena pós-créditos de Thunderbolts*, ele cravou dois pontos que mexem com a base do MCU: é a sequência pós-créditos mais longa do estúdio até hoje e foi dirigida pelos irmãos Russo, que estão ao mesmo tempo à frente de Vingadores: Doomsday. O recado é simples: não é um enfeite, é um conector direto para o próximo grande capítulo.
A cena mostra a chegada do Quarteto Fantástico à linha do tempo principal do MCU. O destaque visual é o foguete da equipe, o mesmo que apareceu rapidamente no trailer de Fantastic Four: First Steps. Nada de aparições tímidas nem piadas soltas. É uma entrada com peso de evento e com função clara na narrativa maior que o estúdio vem tecendo desde a fase do multiverso.
Feige explicou que a sequência acontece cerca de 14 meses depois dos acontecimentos de Thunderbolts*. Esse salto dá espaço para reacomodar o tabuleiro: governos, opinião pública, novos protocolos de segurança e, claro, o reposicionamento de heróis e anti-heróis. É o intervalo necessário para consolidar o anúncio bombástico de Valentina Allegra de Fontaine no final do filme: os Thunderbolts, agora apresentados ao mundo como “Novos Vingadores”.
Essa manobra tem consequências. De um lado, está a equipe liderada por Sam Wilson, herdeiro do escudo e do legado dos Vingadores “clássicos”. Do outro, um grupo batizado com o mesmo rótulo, mas sob chancela institucional e com um histórico que mistura missão oficial, margem cinzenta e dano colateral. Nas palavras de Feige, a cena firma o ponto exato em que essas linhas se cruzam — e se chocam.
O Quarteto entra bem nesse vácuo de autoridade. De acordo com Feige, o filme Fantastic Four: First Steps termina com um rastro de devastação na realidade de origem da equipe. A pós-créditos de Thunderbolts* confirma a transição deles para a Terra principal do MCU. Não é só um cameo: é a peça que faltava para alinhar a cronologia da equipe com o que veremos no próximo Vingadores. Reed, Sue, Johnny e Ben chegam como agentes de mudança numa paisagem que já estava em disputa.
O uso dos irmãos Russo na direção da cena não é um capricho. Eles já provaram que sabem administrar elencos grandes e tensão política desde O Soldado Invernal e Guerra Civil. Aqui, a ideia é costurar visual e tom com precisão entre o final de Thunderbolts* e o início de Doomsday. A continuidade estética — do design do foguete à paleta de cores e à escala do set — ajuda a vender a sensação de um mesmo fio narrativo, sem costuras aparentes.
O “quando” da cena também importa. Em 14 meses, um time pode ser exaltado pela imprensa, testado por missões de alto risco e engolido por escândalos. Val sabe jogar esse jogo. Ao rotular publicamente os Thunderbolts como “Novos Vingadores” diante de câmeras e microfones, ela cria um fato consumado. Fica a pergunta: quem detém a marca “Vingadores” na prática? Sam Wilson e aliados, por legado e reputação? Ou o grupo novo, com carimbo oficial e orçamento?
Esse conflito de legitimidade não é só de uniforme. É jurídico, midiático e ético. Quem responde a quem? O cidadão comum, vendo dois times agirem ao mesmo tempo, em quem confia quando os métodos divergem? Feige aposta que essa fricção vira combustível dramático para Doomsday e para os arcos individuais de personagens que carregam cicatrizes dos últimos anos do MCU.
Entre esses arcos, três se destacam. Bucky Barnes, o Soldado Invernal, tenta a duras penas se manter do lado certo da história, agora sob holofotes e rótulos que ele nunca pediu. Yelena Belova, treinada para operar nas sombras, precisa aprender a performar como “heroína oficial”, com câmera em tempo real e briefing antes do combate. E o restante dos Thunderbolts caminha da condição de peças de reposição para protagonistas declarados — um salto que cobra coerência, estratégia e responsabilidade.
No campo tático, a presença do Quarteto mexe com tudo. Reed Richards pensa em escala de sistemas, não de batalhas isoladas. Sue lê a sala e impõe limites. Johnny dispõe de potência bruta com senso de espetáculo. Ben carrega força e humanidade. Eles não são simples reforços. São um grupo com dinâmica própria, capaz de catalisar alianças ou expor rachaduras nas equipes já existentes.
O MCU sempre tratou suas cenas pós-créditos como pistas. Algumas eram piscadelas, como o shawarma dos Vingadores. Outras, ganchos diretos, como Thanos ao fim de Os Vingadores. A de Thunderbolts* entra na segunda categoria. É longa, tem direção de quem comanda o próximo capítulo e posiciona peças num calendário exato. Não sobra espaço para interpretação ambígua: é preparação de terreno.
Nesse cenário, o multiverso deixa de ser conceito abstrato e vira consequência política. Se um time chega de uma linha do tempo devastada, quem regula a interação com essa nova realidade? O aparato estatal de Val? A rede de aliados de Sam? Ou uma terceira via, guiada por ciência e ética, com Reed assumindo a dianteira? Essas definições moldam as missões, o recrutamento e até a opinião pública.
Há um detalhe prático que costuma passar batido: continuidade visual. Feige sublinhou que chamar os Russo para a cena foi uma escolha de engenharia narrativa. A construção do foguete do Quarteto, o interior da nave, a assinatura sonora, tudo aponta para uma transição sem solavancos quando o público migrar de Thunderbolts* para Doomsday. É a mesma língua falada em dois filmes, o que ajuda a manter a imersão.
Também pesa o timing de comunicação. Anunciar “Novos Vingadores” em coletiva não é só estratégia de branding. É um gesto de poder que tenta enquadrar rivais e conquistar manchetes. Em termos de mundo real, é como renomear um time tradicional com novo patrocinador e exigir o reconhecimento imediato das federações. Funciona? Depende da performance em campo — e de como a torcida reage ao primeiro tropeço.
Do ponto de vista do fã, a cena reorganiza expectativas. Quem apostava numa lenta introdução do Quarteto agora sabe que a integração será acelerada e com impacto direto nas formações de equipe. Quem acompanha Bucky e Yelena desde suas jornadas pessoais vai ver a dupla testada no palco principal, com riscos maiores e menos margem para erros.
Para não perder o fio, vale anotar os pontos-chave que Feige estabeleceu sobre a sequência:
- Quando ocorre: 14 meses depois dos eventos principais de Thunderbolts*.
- Quem chega: o Quarteto Fantástico, em seu foguete, migrando para a Terra principal do MCU.
- Quem disputa o rótulo: os Vingadores de Sam Wilson vs. os “Novos Vingadores” apadrinhados por Val.
- Quem dirige a sequência: os irmãos Russo, garantindo continuidade com Doomsday.
- Para que serve: amarrar cronologia, preparar conflitos e definir o tabuleiro de equipes.
Esse arranjo abre um leque de combinações. Missões paralelas, atritos em campo, operações clandestinas versus ações transmitidas ao vivo. Não é difícil imaginar um incidente global que force cooperação tensa entre Sam e Val, com o Quarteto atuando como árbitro técnico ou como a variável que ninguém consegue controlar.
Se Thunderbolts* tratou de mostrar o custo de usar peças “imperfeitas” para missões perfeitas, a pós-créditos amplia a escala. Agora, o custo é institucional. Erros viram crises de confiança. Acertos viram capital político. E, no centro, um público que precisa de heróis eficazes e transparentes ao mesmo tempo — algo raro quando agendas entram em conflito.

Impacto direto em Doomsday e no mapa de poder dos heróis
A expressão usada por Feige — “momento crucial para a Fase 5 e além” — não é exagero no contexto. A chegada do Quarteto redesenha prioridades. A ciência volta a liderar o debate, com Reed potencialmente definindo protocolos interdimensionais. Sue pode se tornar a ponte diplomática entre times. Johnny e Ben são trunfos táticos que deslocam hierarquias de força estabelecidas pela última safra de heróis.
Para Sam Wilson, que já precisou provar legitimidade atrás do escudo, o novo cenário cobra duas frentes: manter a moral do time e recuperar o direito de definir o que é ser Vingador. Para Val, o objetivo é consolidar seu grupo como resposta “oficial” a ameaças, com narrativa alinhada e resultados exibíveis. E para os Thunderbolts, agora sob holofotes, a linha entre redenção e espetáculo fica mais fina.
Os Russo, ao assumir a pós-créditos, sinalizam que Doomsday vai herdar não só personagens, mas tensões. Eles conhecem o peso de dividir um universo em times com visões diferentes — e o impacto emocional de colocar amigos em lados opostos. Se Guerra Civil foi sobre leis em tempos de trauma, Doomsday desponta como o capítulo sobre autoridade em tempos de colapso de realidades.
Do ponto de vista do planejamento do estúdio, a sequência cumpre múltiplas funções ao mesmo tempo: introduz o Quarteto sem redundância, fixa um carimbo temporal claro, instala um conflito de legitimidade, reposiciona os Thunderbolts com status público e prepara a passagem de bastão para o próximo Vingadores sem mudar o tom. É o tipo de engenharia que o MCU domina quando decide que uma cena pós-créditos não vai ser só um agrado, mas a dobradiça da porta.
Feige também deixou no ar a promessa de crescimento pessoal para os nomes mais marcantes dos Thunderbolts. Bucky com a busca constante por propósito, Yelena com um humor que, em cena, pode virar estratégia de descompressão, e outros membros precisando provar que merecem o “A” na fachada, e não apenas um crachá temporário. O público verá se o rótulo “Novos Vingadores” é conquista ou só marketing de ocasião.
Se a tradição das pós-créditos no MCU é apontar a estrada, a de Thunderbolts* é praticamente um mapa com quilometragem marcada. A data relativa está dada, as peças estão no lugar e o adversário maior — a desordem entre realidades e entre autoridades — já começou a testar os limites de cada equipe. A partir daqui, cada movimento conta, e cada silêncio também.